O mofo e o fio
Sabe, às vezes, o fio se rompe. Um fiozinho que nos liga ao mundo. Bem fininho, sabe. Esse fio faz a gente olhar as coisas. O pó na mesa, a luz do dia sobre as potes, móveis, o micro-ondas, dentro de uma xícara, por exemplo, uma meia sombra. E é mais ou menos como se quando a gente fugisse o fiozinho nos puxasse. Olha o sofá! Olha o barulho duma serra, a cinza do cigarro. A gente olha pro mundo. Essa é a função do fio. Teve uma vez que, quando o mundo não estava bom, eu achei uma mão que pousou na minha mão, ouvi uma risada, vozes bem perto. Eu era criança. Eu estava na universidade, eu era uma pessoa, talvez mulher, talvez mãe, talvez só uma pessoa mesmo. Até me viam. E era fácil. O fio estava ali. O mundo. Eu até limpava coisas, organizava. O mundo não doía como farpa. Aos poucos foi acontecendo do fio esticar, esticar e esticar até sumir. Aí o mundo já não dava mais pra ver direito. Não tinha mão. Tinha o celular, a Internet… Na falta de uma mão sobre a minha mão, de vozes por perto. Acho que esse era o segredo, do fio. Hoje eu já não sei nada sobre o que está ao meu redor. Até comprei um panetone. Existe o tempo, dizem. Natal. Algo do tipo. Mas eu olho para o panetone e não sinto fome, nem natal. Eu só não tenho força pra abrir a embalagem. É como se não estivesse ali. Ou aqui? Não tem mais fio me ligando a nada. Acho que é tudo meio ruína, roupas que não uso, tênis pelo chão, all star, dizem que fica bem, que não sai da moda, dizem, em algum lugar… As paredes têm mofo. Vezenquando eu tento arrumar esse lugar que não é um lugar. Mas não tem nada que dê pra arrumar e eu desisto. A ripa do teto na entrada do quarto está lá, caindo, em posição de abandono. Eu não o vejo, mas sei que está. Hélices de ventilador, vultos que atravessam os vidros foscos da porta, emitindo sons de vida, carregando coisas. Tão longe, parece. Uma vida que passa, que ri, que fala… e passa, como se houvesse um outro planeta, uma outra dimensão e eu não estou lá. O resto vai só permanecendo, não faz parte de mim. O fio se rompeu. Faz tempo já. Os copos ficam sujos por muito tempo no mesmo lugar. O mato cresce ao redor. Pêlos de gato. Mofos nas paredes. Eu sento, acendo um cigarro. Pego o celular. Fico nele, o dia todo. Meio como aquela mulher de Admirável Mundo Novo que volta e pede pra ficar até o fim no hospital, com drogas sendo ministradas, pra ela ser feliz dentro da cabeça dela, ao menos, sabe. É que não tem uma mão sobre a minha mão. Nem vozes perto. As embalagens são difíceis de abrir porque não fazem sentido, as paredes lembram que o mofo só cresce e cresce. Um pequeno pedaço de ruína que flutua. Eu sento, acendo um cigarro, pego o celular.

Tua escrita,é boa demais!
ResponderExcluirQueremos mais escritas! 🤩
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